Ideal – E aí Nenê, o que pode nos adiantar sobre esse esperado álbum Insônia 2008? Nenê Altro – Bom, ficamos dois anos sem lançar um disco, em tour de nosso último álbum, “Lírios Aos Anjos”, de 2005, e de nosso DVD “Metrópoles Em Chamas”, de 2007. Tínhamos muitas idéias, mas, devido a essa correria toda, tivemos que dar um break na estrada para compor. Fizemos o “Insônia 2008” em quatro ou cinco meses, de músicas que já havíamos testado em ensaio. Algumas até já foram gravadas em pré-produções e etc. E, posso dizer sem medo, o resultado foi hiper satisfatório. Está um álbum único, e como todo disco do Dance of Days ele é diferente de todos os outros, mas ainda soa como a gente.
Ideal – O disco se chama Insônia 2008, mas será lançado dia 1 de Dezembro de 2007, como funciona isso?
Nenê Altro – O Dance of Days sempre foi uma banda que andou com as próprias pernas. Nós desbravamos a cena independente que existe hoje em dia, ao lado de diversas outras bandas de nossa geração. E sempre acreditamos na força da estrada, no contato direto com os fãs. A idéia é que a tour do “Insônia 2008” comece já dia 1 de Janeiro, quando devemos fazer um show totalmente novo, com novas músicas e conceitos. E, para que isso funcione, as pessoas devem conhecer as músicas. Então fechamos uma parceria com a Trama e decidimos lançar esse disco primeiro para download na net e só no início do ano que vem em cd. Assim os fãs podem baixar de graça nossas músicas e cantar junto nos shows.
Ideal – Você acha que isso atrapalhará na vendagem dos discos?
Nenê Altro – Absolutamente. Quem gosta de cd vai comprar o álbum. E o futuro é esse mesmo; música na internet e show na estrada. Nem as grandes bandas de gravadoras vendem como antes nos dias de hoje. E a gente tem muito mais retorno com o lance do download remunerado da Trama, por exemplo, do que ganhando centavos por disco vendido. Tudo que entra é investido em equipamento, tours e etc.
Ideal – E como está funcionando essa parceria com a Trama?
Nenê Altro – Bom, somos grandes parceiros da Trama. Desde o início. Sempre disponibilizamos nossos álbuns inteiros, sempre gravamos programas, sempre tivemos muito espaço no Tramavirtual e etc. Acho que uma parceria como esta com a Trama seria o caminho natural para uma banda com a mentalidade do Dance of Days. A gente está tendo um super suporte deles pra divulgar o novo álbum, de estrutura, assessoria, etc., sem ninguém cobrar nada da gente, sem ninguém dizer pra gente o que a gente vai ter que gravar, o que falar ou o que vestir. Saca? É um lance de parceria mesmo, não de rédea.
Ideal – Quais serão as participações nesse álbum?
Nenê Altro – Chegamos a pensar em diversas parcerias para o disco. O Mi e o Elliot do Glória gravaram primeiro, depois o Yuri do Granada. Chegamos até a conversar com o Philippe Seabra da Plebe Rude, que topou, mas como tudo ficou em cima da hora acabamos ficando sem tempo hábil pra fazer rolar. O que, como fãs da banda, faremos com certeza, num próximo single.
Ideal – Como estão planejando a tour do novo disco?
Nenê Altro – Em 2007 fizemos grandes festivais, como o Abril pro Rock de Recife e o Porão do Rock de Brasília. Acho que, pelo menos nesse primeiro semestre, o foco vai ser mais através das capitais e regiões onde temos uma grande base de fãs. Pelo interior seguiremos também, mas tentaremos fazer algo mais seqüencial, como mini tours por cada região. Para o segundo semestre ainda não pensamos. Estaremos trabalhando também com uma produtora de shows, o que vai facilitar em muito organizar tudo isso.
Ideal – Nenê, você é um cara que está sempre envolvido em diversas atividades, que grava discos com suas bandas desde o início dos anos 90, então queria saber em que lugar esse novo álbum se encaixa em sua carreira como músico.
Nenê Altro – Eu passei por uma fase muito crítica em minha vida há algum tempo atrás, muito down, o que culminou em discos como “Lírios Aos Anjos” e, mais ainda, como “Eurema Elathea”, do Nenê Altro & O Mal de Caim. Acho que esse novo disco me trouxe de volta a superfície. “Insônia 2008”, ao mesmo tempo em que tem os nervos do “Coração de Tróia”, tem uma pegada mais semelhante ao “Valsa de Águas Vivas”, principalmente na vibe, porque na música evoluímos bastante desde aquela época. Com o lançamento desse álbum estou conseguindo respirar, estou conseguindo mostrar pras pessoas que eu sobrevivi a tudo aquilo que eu estava passando, sabe? Está me fazendo muito bem.
Ideal – Você acha que mudou muito?
Nenê Altro – Espero que sim. Acho que quem não muda, quem não procura melhorar, nem que seja um pouco, encontra o fim da vida antes mesmo da morte. Eu tento sempre me tornar um pouco melhor, me livrar das coisas que não gosto. Nesta fase down que eu falei eu estava uma pessoa muito agressiva, vivia arranjando briga em baladas, tudo sem motivo e absurdo. Ao passo que fui saindo desse mar de depressão fui me tornando menos agressivo também. Minha mente é clara, mas estou menos cachorro louco preso na corrente. E, apesar de ter meus pontos de vista, deixei cada vez mais ir embora os dogmas das utopias que cultivei na adolescência. Isso também me fez muito bem. Acho que vai dar pra ver isso bastante nas letras. Me tornei mais essa pessoa que busca aproveitar o sabor de cada momento. A que abre a janela e diz que o dia está bom, que acordou feliz e que quer andar um pouco no sol.
Ideal – Muita gente ainda te critica por mudar quando tem vontade?
Nenê Altro – Sabe que eu também mudei em relação a isso? Hahahaha Quem gosta mesmo de mim entende o que eu digo, principalmente nas letras, sabe que todo mundo muda, que as pessoas aprendem, crescem, mudam de casa, arrumam novos empregos, casam, tem filhos, e que tudo isso altera bastante o que pensam, como vivem e tudo mais. Os que falam mal eu comparo um pouco a mim mesmo na idade deles. Eu fui um adolescente bem chato, punkinho panfleteiro que procurava pelo em ovo pra arrumar encrenca saca? Já tentei conversar com essas pessoas, mas vi que não adianta nada. Se não adiantava comigo porque irá adiantar com eles? Hahahaha Todo mundo tem seu tempo. Só acho que violência é dispensável. Violência é a prova absoluta de que a pessoa não tem realmente nada a dizer nem sobre os outros nem sobre ela mesma.
Ideal – Mas do passado, o que você carrega ainda com você?
Nenê Altro – As coisas que achei boas de tudo pelo que passei. Seja dos relacionamentos que tive com pessoas ou de minhas ideologias e fases. Essa coisa minha de palco, por exemplo, eu sempre vou carregar do punk. Amo e não vivo sem. Política... Eu não voto. Não consigo. Não sei como seria a vida sem Estado, mas ainda me incomoda viver dessa forma. Mas não me vejo relacionado a nenhum movimento, anarquista ou não. Sou eu e minha vidinha aqui, meu mundo, minhas idéias. Quem quiser que aprenda a se relacionar comigo. Senão me deixa em paz. Eu aprendi a me relacionar com gente que pensa muito diferente de mim. Isso foi uma das melhores coisas que já me aconteceram.
Ideal – Se arrepende de algo?
Nenê Altro – Na maioria das vezes não. Me arrependo quando faço de novo alguma coisa que já tinha prometido não fazer e que já tinha sentido ser ruim pra mim. Não gosto de demorar pra aprender.
Ideal – E como você está agora, nessa fase do “Insônia 2008”?
Nenê Altro – Estou me sentindo melhor. Uma pessoa melhor, digo. Nos últimos anos eu me fechei muito, me afastei dos amigos, vivia com minha esposa numa brigada tipo, a gente contra tudo. Bebia por beber, não por diversão. Acabei me afastando muito até dos meninos da banda, achando que todo mundo estava contra mim... Essa coisa besta de maníaco depressivo fresco saca? Mas passou... E esse novo disco representa pra mim a celebração do fim disso tudo, de estar de novo na estrada, bem com meus amigos e com minha vida. Gosto de dar um sorriso e transpirar alegria, não nervosismo. E é assim que estou me sentindo.
Ideal - Quantas músicas estarão no novo disco?
Nenê Altro: 14.
Ideal – Todas inéditas?
Nenê Altro - Sim, com exceção de “Com Você Não Vou Ter Medo” que já tinha saído no single virtual.
Ideal – Alguma música parece com alguma de outro álbum, só pra gente ter uma idéia?
Nenê Altro – Acho que tem elementos de todos nossos discos aqui. É o que quase sempre acontece. A diferença é que são cada vez mais discos. Tem momentos fortes, pesados, que lembram bastante o “Coração de Tróia”, mas tem músicas mais calmas, com pegadas mais alegres, como as do “Valsa”. Tem uma que chama “O Melhor Dançarino de São Paulo” que é muito na pegada de “Tijolos Amarelos” e “Interlúdio Para Um Bar de Estrada Por 33 Anos Fora do Mapa”. Mas tem muita coisa nova também... Vocês vão gostar.
Ideal – Hahahaha Acho demais os nomes das músicas. Quais os títulos mais diferentes que estarão no novo álbum?
Nenê Altro – Eu sempre acho que o título tem que ser a síntese da música, e que é tão importante quanto. Tem uma música que se chama “Prelúdio ao Testamento do Apanhador” e outra que se chama “Esta Música Me Diz Tanto Que Nem Sei Como Não Tem Meu Nome”. Gostamos de nomes grandes. Mas também temos pequenos como “Caulfield” ou “Dorian” dos álbuns anteriores.
Ideal – Nenê, muito obrigado pelo papo e conte sempre com a gente da Ideal pra te ajudar em seus projetos. Alguma mensagem final?
Nenê Altro – Queria agradecer aos fãs que sempre estão ao nosso lado, a todo mundo que está dando uma força e baixando as músicas no Trama, ao nosso street team, o Dance Army, e a todo mundo que tem se demonstrado parceiro mesmo. Acho tudo isso muito forte. E de mensagem, espero que esse disco seja tão bom para vocês como está sendo pra mim. Espero que faça parte da vida de vocês e que tenham nele um amigo, como eu tenho vários amigos em meus discos. Muita força pra todos vocês, levem a vida mais de boa, com menos stress, mais amizade e cuidem-se. Estamos juntos.