Formado há 14 anos, o Wry parece ter a determinação que falta a muitos grupos independentes brasileiros. Do início em Sorocaba, a cidade de origem, à Londres, onde moram desde 2001, muita coisa aconteceu – e depois disso também! Foram lançamentos em países diferentes, shows importantes, festivais, críticas positivas e o respeito conquistado tanto por parte dos brasileiros, quanto dos londrinos. A base disso tudo foi a força de vontade, mas é claro que sem o rock alternativo de qualidade, fruto de uma mistura de shoegaze, pop, britpop e, quem sabe, punk, nada disso seria possível. Trocamos uma idéia com o vocalista/guitarrista Mario Bross, que falou um pouco sobre o material da banda, planos, a esperada vinda ao Brasil e ainda deu umas dicas aos jornalistas brasileiros caçadores de hype! Parodiando o Sex Pistols, deixe o hype pra lá, aqui está o Wry! (Ricardo Tibiu)
Entrevista: Xilip C e Ricardo Tibiu
Revisão: Ricardo Tibiu (
www.chiveta.wordpress.com)
Acabou de sair um novo EP intitulado “Whales And Sharks”, lançado somente na Inglaterra. Fale um pouco sobre ele e quando poderemos ter esse disco em mãos.
Bem esse EP já saiu há um ano aqui na Inglaterra e foi distribuído fora também, como EUA e Japão. Este é nosso primeiro trabalho com o novo baterista, André. Existe a partir de agora uma química diferente da que existia antes, parece que nos descobrimos, essa é a sensação. A criatividade ficou bem mais nítida e lúcida, e construímos músicas com mais rapidez. São quatro músicas no EP, “Sister” e “Different From Me” saíram também em vinil, como single e ainda tem a minha favorita “Bitter Breakfast” e “Never Sleep (When I Go)”. “Different From Me” e “Sister” receberam bastante elogios de pessoas como Steve Lamacq, um dos radialistas mais famosos da Inglaterra e Tom Robinson, da BBC, o Kevin Shields [nota do editor: My Bloody Valentine, Primal Scream, J Mascis/Dinosaur Jr.] também curtiu muito a “Bitter Breakfast”.
E quanto aos planos desse material sair no Brasil?
Era pra ter saído pela Pisces Records, mas por algum motivo enigmático não saiu. Então pretendemos negociar esse lançamento com outro selo. Nossa gravadora no Brasil é a Monstro, e eu adoro a Monstro e todo o pessoal que trabalha lá, então provavelmente serão eles que irão lançar. E sairá somente em CD, se alguém se interessar em lançá-lo em vinil é só falar comigo.
Fiquei sabendo de um disco de covers, confere essa informação? Como assim?! (risos).
Sim, estamos lançando este ano “National Indie Hits”, um disco em homenagem às primeiras bandas brasileiras que ouvimos e também algumas que chegamos a tocar juntos, como Walverdes, Pin Ups, Vellocet, Killing Chainsaw, brincando de deus, Snooze, Astromato entre outras.
O Wry já tocou algumas vezes com o CSS, como é a relação com eles? Brasileiros dominando London?
Não, nada disso. Não tem essa de dominar Londres não. Aqui quem domina são os ingleses. Brasileiros são queridos, mas não passa disso.
O quê foi mais difícil, tomar a decisão de largar tudo no Brasil e ir pra fora ou conquistar o espaço de vocês aí?
Olha pra te falar a verdade, não considero nada difícil. Foi tudo muito legal, o que vivemos até agora. Era o mínimo que pedimos e conseguimos fazer aquilo que gostamos. Um probleminha aqui e outro ali, não gera nada, além de experiência e vivência. Adoramos o que fazemos e pretendemos fazê-lo pro resto da vida que ainda temos. Dificuldade é relativa (risos).
Vocês tocaram na segunda edição do Juntatribo, quais são as principais lembranças da época?
Cara, você sabe que as imagens são como sonho para mim, não me lembro lucidamente do que aconteceu por lá. Tenho flashes das coisas, dos shows que assistimos e do que fizemos. É muito engraçado isso, eu que valorizo a memória declaradamente, não coleciono nada tão vívido em minha mente relacionado ao Juntatribo. Dos flashes eu cito: conversando com Giuliano, do Low Dream; dando carona pro brincando de deus até o aeroporto, a comida que estava azeda; nosso show de cinco músicas; o Miojo, de São Paulo, dando um mosh em nosso show, que era o segundo fora de Sorocaba; eu dormindo no carro e a poeira levantando do local onde estava levantado o circo.
O Wry já dividiu o palco com bandas como Superchunk, Mudhoney, Man Or Astroman?, Ash, Subways e tantas outras. Quais foram as que deram aquele friozinho na barriga? Houve algum tipo de decepção com alguma dessas?
O Superchunk foi um pouco chatinho quando tocamos em Piracicaba com eles, que era a segunda vez que tocávamos juntos. Só essa, o restante das bandas não me deu frio na barriga não, lógico que adorei tocar com todas. Fiquei bastante ansioso nos shows com o Subways, que eram os jovens que iriam nos julgar nos shows, mas para nossa felicidade o povo adolescente nos amou.
Vocês já sofreram algum tipo de preconceito por parte do público, bandas ou ainda mídia pelo fato de serem brasileiros?
Não, nunca. Mas eles preferem os ingleses, sem dúvidas, e certo eles.
Com nomes como Tim Wheeler (Ash), Jimmy Robertson (Futureheads, Razorlight, Slipknot), Gordon Raphael (Strokes) e Robin Springall (REM, Pavement, Suede) envolvidos na produção de “Flames In The Head”, vocês não tiveram receio de eles acabarem chamando mais atenção que o próprio CD?
De forma alguma, eles trouxeram mais destaques para as músicas e mais experiência pra gente. Foi ótimo trabalhar com essas pessoas. Com o “Whales And Sharks”, que não tem ninguém de renome envolvido, conseguimos muito mais coisas do que com os anteriores.
Por falar nisso, no “Flames In The Head” há momentos de melancolia, indo do shoegaze ao pop, passando pelo britpop até uma veia punk. Qual seria a melhor definição para o som do Wry?
Definir o som do Wry pelo “Flames In The Head” não é mais coerente, o som do Wry é do “Whales And Sharks” pra cá. Um som que envolve sonho e batidonas profundas de bateria. Um som que envolve tecnologia e elevação de espírito; memórias passadas e planos futuros. Vozes e guitarras com muito mais melodias e tracks de bateria que por si só dizem tudo dessa ou daquela música.
Os críticos e jornalistas brasileiros em geral vivem nos sites e blogs gringos atrás do hype do momento pra mostrarem e depois se gabarem como os “descobridores”. Facilite nosso trabalho e cite quem vocês andaram vendo por aí e que acham que vão dar o que falar, a gente promete que quando eles explodirem, daremos o crédito a vocês!
Vou citar umas bem obscuras que daqui um ano podem estar conhecidas por aí, como S.C.U.M, de Londres, Ipso Facto e Factory Floor. Todas elas remetem ao krautrock da Alemanha do final dos anos 70 e ao gótico do começo dos anos 80.
Tanto foi falado do tal new rave, por aqui não faltaram matérias sobre o assunto, além de bandas, festas e DJs se auto-intitulando assim. Aí em Londres isso também foi assim ou era coisa de molecadinha mais nova?
Putz, eu sou de outra linha, quase não leio mais sobre música, então não acompanhei o trend ou a modinha da cena. Lógico que sei o que rola, pois estou no Buffalo Bar quase todo dia e ainda faço uma noite, onde não agendo bandas assim. Mas acho que foi coisa de molecadinha, né? O mesmo que deve ter rolado aí, é o mesmo que rolou aqui uns três anos atrás.
Em 2006 vocês tocaram por aqui, os shows atingiram as expectativas da banda? Bateu saudades de casa ou algum tipo de vontade de ficar?
Sim, foi muito legal. Adoramos os shows, as pessoas e os locais. Depois de todos esses anos, voltar e fazer uma turnê como a que fizemos, foi lindo. Não temos do que reclamar.
Pra encerrar, quando os brasileiros terão nova oportunidade de ver o Wry em solo brasileiro?
O Wry tocará por aí a partir de abril de 2009, lançando já um outro trabalho que não é o de covers, nem o EP, é um novo disco que terminaremos de gravar agora em dezembro. Até lá, boa sorte a todos!
Contato:
www.myspace.com/wrymusic