Entrevista: Questions - Eis a questão!
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Por: Ricardo Tibiu (Data adicionada: 25/08/2009)

Eis a questão!
Próximo de completar 10 anos em atividade e, mais ainda, de soltar um álbum novo, o Questions mantém-se consolidado no underground nacional. Tudo isso graças à sua mistura característica de hardcore com metal, além de suas mensagens e postura em cima e fora do palco. O quinteto paulistano terá “Rise Up”, sucessor de “Fight For What You Believe” (2007), lançado em breve via Seven Eight Life Recordings, que tem em seu cast nomes como Confronto, Good Intentions e Nueva Etica. Antes do terceiro CD do Questions sair, conversamos com o guitarrista Pablo Menna, onde demos uma geral na carreira da banda, motivação, trabalhos paralelos e muito mais. Ele ainda nos adiantou detalhes do disco e contou qual é a questão que não agüentam mais responder em entrevistas! Não deixem de conferir!
Texto: Ricardo Tibiu (www.chiveta.wordpress.com)
Entrevista: Ricardo Tibiu & FelipEterno
O primeiro lançamento do Questions foi a demo-tape “We Shall Overcome” (2000) ainda em formato K7. Vocês que acompanharam a transição de fita para CD e depois para download, não sentem um pouco a falta da valorização de antigamente diante de um trabalho independente?
Com certeza as demos eram vistas com outros olhos. Você pegava a fitinha na mão e sabia que quem lançou tinha feito uma correria danada, e quanto mais legal a capinha você dava um puta valor porque sabia que tinha na mão uma coisa rara. Não se faziam milhares de cópias de demos, nós pelo menos não, então é uma coisa meio de colecionador mesmo. Quando a gente lançou a fita no começo da banda, muita gente já lançava demos em formato CD-R, que já estava ficando acessível na época. Mas optamos conscientemente por lançar em K7 porque sabíamos que quem guardasse a fita ia ter esse sentimento legal de ter uma coisa especial. Aliás, de vez em quando recebemos algum e-mail dizendo que o cara conhece a banda desde o começo, “tenho a fita até hoje”. Esse tipo de coisa a gente acha da hora. Por um lado é muito bom colocar sua música na internet, está ali para qualquer um poder ouvir a qualquer hora, mas perde um pouco da graça sim.
Inclusive indo mais longe, dos anos 90 e o More Beer e suas demos, resenhas na Rock Brigade e poucos espaços para tocar, para o Questions de hoje, com tour na Europa, divulgação na internet e tendo dividido o palco com nomes como Madball e Sick Of It All. Fazendo uma comparação através dessa trajetória, de antigamente para atualmente quais vocês enxergam como principais vantagens e quais os pontos negativos?
As vantagens são várias, com certeza. A internet multiplicou as possibilidades de divulgação de uma banda, encurtou as distâncias, tornou o contato de pessoas de lugares distantes muito mais fácil e rápido. Imagina o More Beer marcando show por carta no interior de São Paulo, era outro mundo. Nos anos 90, a gente suava muito para conseguir uma grana para gravar três ou quatro músicas e ter a alegria de lançar a fitinha com capinha xerocada. Show, só umas poucas casas de São Paulo, muito lugar improvisado. No nosso bairro ainda tivemos o privilégio de termos algumas vezes o apoio da prefeitura para fazer shows na Casa de Cultura do Butantã, um lugar que durante alguns anos teve uma estrutura legal e fez parte da vida de muita gente. A gente até sonhava em tocar em um monte de lugares do Brasil, ou mesmo sair do país, mas era bem isso, “sonhava”. Quando começamos o Questions a gente já tinha isso como uma meta, um sonho mais objetivo, mais concreto, mais possível de ser realizado. Já sabíamos que se a gente se dedicasse mesmo a gente poderia conseguir.
Outra coisa é que melhoramos muito, não só como pessoas porque crescemos, claro, mas como banda também. Então, quando eu vi o Sick Of It All, em 1995, eu sabia que um dia minha banda poderia estar ali, bastava que a gente se dedicasse de verdade. Tudo o que aconteceu com o Questions foi por nosso próprio esforço, por isso temos muito orgulho do que realizamos até agora.
Sobre pontos negativos, talvez toda essa facilidade de conseguir as coisas deu uma banalizada no som. O jeito que as pessoas ouvem e se relacionam com a música hoje é muito diferente. Tudo é muito imediato, descartável. Mas de qualquer forma o tempo acaba dizendo quem está na cena só para “ficar famoso” e quem está realmente querendo dizer algo. As coisas estão muito melhores, na minha opinião.
O disco novo, “Rise Up”, está por vir, o quê vocês podem nos adiantar dele? Conta alguma coisa pra gente em primeira mão!
O disco foi gravado em dois estúdios: no El Rocha e na já lendária Casa do Metal, que foi o lugar onde o Questions começou e ensaia até hoje. Foi uma solução que gostamos muito, porque trouxe uma pegada “ao vivo”, de ensaio, que a gente queria muito e tem tudo a ver com a banda. Sem metrônomo! Inclusive fizemos um vídeo sobre isso, tá no YouTube (www.youtube.com/user/questionstv). Esse tipo de gravação deixou todo mundo mais à vontade, principalmente o Edu, que gravou todos os vocais com microfone na mão, como se fosse show mesmo. É a gravação que melhor captou o que é o Questions até hoje, com certeza!
Em primeira mão dá para adiantar que tem uma música instrumental, diferente de tudo o que já fizemos. De repente é um caminho que a gente vai explorar mais daqui para frente.
Por falar no disco novo, o Edu (voz) fez a capa e sempre faz os flyers dos shows, além da banda ele tem uma carreira no ramo das artes assinando como Revolback. A galera que curte o Questions conhece esse lado dele e, o oposto, tem quem foi conhecer a banda depois de ver o trabalho dele como ilustrador?
Tem as duas coisas. É mais comum o cara do hardcore se interessar pelas artes, já que isso é parte do Questions desde o começo. Muita gente conhece o Revolback por causa da banda. Já o pessoal ligado em arte às vezes pode se assustar com a barulheira, mas acontece também! Aliás, toda essa parte visual da banda, capa de disco, flyer, camisetas etc, sempre foi uma coisa que demos importância e o Edu sempre trouxe as ideias para a gente fazer. O seu trampo como artista inclusive foi se desenvolvendo paralelo ao Questions e é muito foda acompanhar a evolução do seu traço. Nesse disco achamos que a capa deveria ser uma obra sua, então ele já pintou a capa pensando no tema do disco.
No site de vocês há um post falando de um “bate e volta até Belo Horizonte/MG” que vocês fizeram num domingo, dizendo ainda que na segunda-feira todo mundo teria que estar de volta à São Paulo para trabalhar. Qual a motivação de tocar e encarar correrias como essas e, é uma oportunidade de saber, o quê cada um faz fora da banda?
A motivação é simples: é o prazer de estar com os amigos fazendo algo em que a gente acredita. Se a gente fosse pensar em grana já tinha parado faz tempo. Todos temos e sempre tivemos trabalhos paralelos. Eu tenho uma produtora de vídeo, Toro, há mais de 10 anos, o Edu e o Duzinho (bateria) fazem trampos de câmera e edição comigo. O Helinho (baixo) é jornalista e trabalha com assessoria de imprensa, e o Pablo Lucente (guitarra) é roadie e trampa com várias bandas, até por isso não é em todo show do Questions que ele pode estar.
Vocês assinaram agora com a Seven Eight Life, um selo que lança somente bandas straight edge. Como rolou isso e há alguém na banda que também segue essa filosofia de vida?
Nenhum de nós é straight edge, nem nunca foi. Mas sempre tivemos amigos nesse meio e nunca desrespeitamos ninguém por seguir esse estilo de vida. Sempre dissemos isso desde o começo, cada um na sua, união e respeito! A aproximação com o selo rolou naturalmente, pois já estávamos envolvidos em outros projetos. Quando a gente foi a gravar o disco começamos a conversar e vimos que o selo estava disposto a correr com a gente. Espero que essa parceria renda bons frutos para nós e para a Seven Eigth Life!
As influências mais evidentes do Questions estão no hardcore e metal. Quais seriam os três nomes principais que ajudaram a moldar a sonoridade de vocês?
Resumir em três fica bem difícil. Um bom chute seria Sick of it All, Sepultura e Agnostic Front. Mas tem o Slayer! E o Cro-Mags! E o Youth Of Today, o Vio-Lence e o Rykers, bom, só três não cabe!
E o contrário, quais são as influências que não são notadas nitidamente no som de vocês e que as pessoas talvez nem imaginem que vocês tenham?
Às vezes a banda não te pega tanto pelo som, mas ela traz algum elemento que você se identifica, como sei lá, o Sonic Youth, que sempre fez uns vídeos experimentais, estranhos. Nos inspiramos em bandas que transmitem sinceridade no que estão fazendo e trazem algo interessante, como o Quicksand e suas capas de discos. Ou tem também bandas que ouvimos muito quando a gente era moleque, como AC/DC e Iron Maiden. Num disco do Questions não vai ter nada parecido, mas se não fosse por eles certamente não estaríamos aqui.
Na turnê européia todos os membros tiveram problemas estomacais, chegou a afetar os shows? Qual a dica para as bandas que querem arriscar uma tour como esta não sofrer com esse tipo de problema?
A gente tava é vomitando, e não era por bebedeira não. Fizemos alguns shows meio baqueados, foi engraçado que fomos ficando mal um de cada vez, inclusive os caras da banda holandesa que estava com a gente. Mas deu para se virar legal. O mais tenso foi o Edu no primeiro show, ele tava zoado, e um outro show que o Duzinho tocou com um balde do lado da bateria, em caso de urgência! Mas isso é normal com a comida diferente, a dica é ficar esperto com o rango! Se tá meio estranho melhor deixar quieto...
O Questions é uma banda que tem seguidores bem fiéis, que inclusive se tatuam com o logo e/ou partes de letras. A que se deve essa dedicação, o quê vocês sentem com essa resposta e qual a maior loucura que alguém já fez por vocês?
Cara, isso é uma coisa muito séria. A primeira vez que alguém tatuou o símbolo a gente pirou (entres eles o Tiago e o Bauer, de Jundiaí/SP, e o Marcelo aqui de São Paulo), e mesmo que algumas pessoas continuam se tatuando até hoje, eu continuo achando muito foda! São raras as bandas que provocam esse tipo de reação e para nós é motivo de muita satisfação e orgulho! Eu acho que isso se deve ao fato de as pessoas perceberem quão sincero e verdadeiro o Questions é para nós. E também por gostar do som, claro, se identificar com as letras, aquele conjunto de coisas que faz uma banda ser o que é. A gente coleciona alguns momentos de pessoas que realmente fizeram coisas “loucas” pelo Questions, como camisetas pintadas à mão, os caras de Arapongas/PR que encheram seus carros com adesivos enormes, uma vez em Jundiaí que forraram o pico inteiro do show com posters xerocados. Teve também um cara na Polônia, que viu a gente na cidade dele e depois viajou não sei quantos quilômetros para ver de novo em outra cidade e fez questão de nos pagar uma cerveja e trocar ideia. Detalhe: ele não falava uma palavra em inglês!
Além do Questions vocês possuem a produtora de vídeos Toro, já fizeram alguns DVDs e campanhas bem importantes, já não estaria na hora da Toro produzir um DVD do Questions?
Com certeza! Temos muito material. Até por isso é um problema decidir o que deve ou não fazer parte do DVD. Com os 10 anos se aproximando pode ser que role alguma coisa, mas ainda não decidimos. Até agora estávamos concentrados em lançar o “Rise Up”, daqui para frente temos mais uma tour na Europa para gravar mais um milhão de fitas! Nem o material da primeira tour a gente conseguiu editar ainda, afinal temos também que trabalhar para nos sustentar. Estamos fazendo um documentário, alguns episódios já estão prontos e disponíveis no YouTube (www.youtube.com/user/questionstv). Mas vamos estar sempre fazendo vídeos, isso é certo! Vai chegar o momento de lançar um DVD, com certeza!
Pra finalizar qual é a “questão” que vocês não aguentam mais ter que responder em entrevistas?
Não tem uma questão específica, mas a entrevista meio mala é aquela que você percebe que quem está te entrevistando não sabe praticamente nada da sua banda, das suas ideias etc. Ai fica uma coisa meio mecânica, tipo jogador de futebol. O jornalista faz a mesma pergunta e o cara dá a mesma resposta sempre. Mas isso não é comum, geralmente quem vem falar com a gente já nos conhece, está realmente interessado em trocar uma ideia. Pode não parecer, mas ainda existe espaço na cena independente para exposição e discussão de ideias. O mundo não é só Fotolog e fofoca, as bandas que têm algo a dizer vão sempre estar aí, incomodando.
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